sábado, 23 de fevereiro de 2013

Uma Linda Mulher - 2ª Temp. - Lembranças são eternas, sufoque-se delas.


Não notou quando entraram no quarto; não notou quando lhe dirigiram a palavra; não notou quando o sol, por fim, decidiu aparecer. E sua voz parecia se calar no seu mais intimo interior que gritava.

Céus! Gritava com tanta força para que aquele anjo voltasse e lhe desse um pouco de calor, um pouco de sol.

Fechou os olhos, negando uma vez mais com a cabeça, sentindo os raios de sol iluminarem o quarto e as feições tão ternas e tranquilas de Marieta.


Dr. Júlio – Edward? – o chamou duas, três vezes mais – Eu sinto muito... – também negou com a cabeça. Era impossível de não se comover. Franziu a testa, mirando o homem a sua frente – Eu sinto muito. – Edward assentiu, com os lábios trêmulos e perdidos como os de um bebê.

Ouviu a voz de Alice no corredor, seguida de outra, que reconheceu como de Tânia.


Alice – Edward olha quem eu encontrei... – Alice mirou o irmão e a equipe médica que se instava calmamente e silenciosamente no quarto.

Tânia arregalou os olhos em estado de choque, se pondo tão pálida quando Alice, que cambaleou para trás, arregalando os olhos em pânico, vendo o estado inconsolável de seu irmão. Edward se levantou com dificuldade, estendendo as mãos para Alice, que negou com a cabeça, soltando outro grito de dor, sendo segurada por médicos e enfermeiras no local, vendo Edward caminhar até ela, lhe pegando nos braços como um bebê indefeso, sentando-se no sofá e lhe alisando os cabelos até que aquele choro alucinado parasse.

Ed – Calma querida... – sussurrou para Alice, que lhe puxava o paletó, tentando, a qualquer custo, emitir algum sinal de vida. Mirou Tânia, que, tão indefesa e assustada, pela primeira vez não sabia o que fazer – Shiuuu... Ali, estou aqui. Estou aqui!


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Era horário de almoço quando Edward chegou em casa e percebeu os brinquedos de Linda jogados pela sala de estar e corredor, alguns carrinhos de Gabriel perto da cozinha. Aquele vazio parecia somente o corroer... E corroer.

Bella – Filho, por favor, recolha os brinquedos da Linda na sala... – Bella sorriu na cozinha, dando uma fina sopa escrita pelo nutricionista para Linda – Olá, meu amor! – Edward não respondeu, permaneceu a mirando. Bella, então, notou os olhos fundos em um vermelho intenso, o nariz inchado e a roupa amassada, também úmida, e sentiu que algo rasgava seu peito.

Ela fechou os olhos por alguns instantes, sentindo um sentimento indecifrável. Voltou a abrir os olhos, já mareados, e soltou um gemido baixo, deixando as lágrimas escorrerem, levantando da cadeira correndo até Edward, se jogando em seus braços.

Seu choro era tão compulsivo como o do marido, que lhe abraçava com força e necessidade; necessitando do conforto daquela mulher, daquele abraço tão junto ao seu. Linda se assustou e começou a chorar. Gabriel observava a cena com os olhinhos arregalados e assustados.

Edward não notava o que se passava a sua volta, exceto o cheiro e o calor que o abraço de sua mulher lhe dava naquele instante.

Bella – Meu Deus! – sussurrou com a voz abafada pelo choro sentido e sofrido.

Edward abriu os olhos, mirando Gabriel, tão assustado e indefeso. Como se entendesse a mirada do pai, o pequeno grande garoto correu em direção aos braços de Edward, dividindo sua atenção com Bella, que permanecia em seu ombro, o puxando contra si na desesperada luta contra a dor de perder alguém tão amado.

Ed – Bella? Linda está assustada, meu amor... - murmurou, controlando a vontade de se esquecer de tudo e todos.

Bella se soltou dele, finalmente, com os olhos exageradamente vermelhos e inchados como os seus. O mirou tão profundamente que Edward foi capaz de ver sua dor.

Ela correu até a filha, a pegando no colo. Linda chorava realmente assustada. Gabriel pulou no colo de Edward o abraçando, enterrando sua cabeça no pescoço do pai e soltando pequenos soluços, sentindo as caricias pausadas e trêmulas de Edward em seus cabelos. Bella fazia o mesmo com Linda, de frente para Edward, com seus olhares cravados um no outro.

Bella – Eu estou aqui. – sentiu necessidade de dizer – Sou sua e estou aqui. Nós estamos aqui. – afirmou com paixão, demonstrando àquele belo homem que não estava sozinho.
Ed – Eu sei que está.... – ele, em fim, murmurou com a voz sufocada por aquela tão forte emoção - Eu sei que estão. – completou e sorriu, se lembrando do rosto perfeito e tranquilo de Marieta – Vem cá. – a chamou, e Bella foi, com os olhos semiabertos, se encostar às costas de Gabriel.


E permaneceram assim, no meio da cozinha, até que o choro desse lugar à visão aberta da realidade.




"-E Deus há de ajudar aquela sonhadora criar aquele garoto lindo. Ele há de ajudar a você e aquela linda mulher criarem Gabriel e Linda, que são a razão desse seu olhar iluminado e tão passional."




Ed – Está tudo bem, filho, papai está aqui... – tentou acalmar Gabriel – Papai está aqui!


O passar da vida... Naquele momento, impossível não olhar para trás.




"-Vai sem medo, Alice! O máximo que vai acontecer se cair da bicicleta, é ir para o chão..
A gargalhada de Marieta, a sua e de Alice, quando a menina caiu em um divertido tombo, de sua primeira bicicleta, ecoou pelos cômodos da casa.
-Eu não disse?! O chão está aí, agora sabe como é, minha pequena princesa!"



Então, Edward abriu um sorriso iluminado mais uma vez pela emoção



"-Guarde uma parte dele... E, quando pensar em desistir, deixe que esse maravilhoso calor te aqueça!"




E o sol entrou pela janela aberta da cozinha. E seu coração se aqueceu, de forma que a tranquilidade daquele último olhar ficaria guardada em sua memória. Para sempre!





Quando o relógio informou que já eram seis horas da tarde, Bella desceu as escadas com os cabelos presos em um rabo de cavalo, não tão arrumados, com o mesmo conjunto que vestia na manhã, saindo pela porta da cozinha. Observou Edward sentado nas escadas do quintal que dava para o piso da piscina.

O sol era fraco, como todo inicio de noite. Limpou as lágrimas que insistiam em cair de seu rosto desde a hora que seu marido havia cruzado a porta da cozinha e sentou-se ao lado dele. Edward permanecia de terno, com a camisa para fora da calça, com os primeiro botões abertos, a gravata larga caindo por seu pescoço, os olhos brilhantes pelas lágrimas e vermelhos pela dor. Não disse nada por longos instantes.

Ed – As crianças?
Bella – Linda dormiu há meia hora... – enxugou o rosto – Gabriel dormiu agora. Tive que explicar a ele que... – franziu a sobrancelha, se calando. Edward a mirou, a vendo com a cabeça baixa entre as mãos, que escondiam a todo custo o semblante tão machucado de sua esposa.
Ed – Não quero ser forte agora... – murmurou, e Bella entendeu seu pedido. Tentou se recompor, sentindo a brisa da tarde lhe golpear o rosto em um ar quente e aconchegante.

Edward levou as mão até o rosto de Bella, limpando as lágrimas, deixando que seus olhos dessem livre caminho para as suas. A abraçou novamente, com força. Bella lhe alisou os cabelos, lhe distribuindo beijos carinhosos e ternos pelo pescoço.

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Tânia terminou seu banho. A casa toda estava silenciosa. Sentiu o primeiro arrepio da noite, respirando fundo, trocando de roupa rapidamente.

Passando pelo quarto de Alice observou que tudo estava vazio e silencioso, como no resto da casa. Caminhou para o quarto do pequeno Thomas, que, tranquilo, permanecia dormindo. Na última porta, com a emoção nos olhos e no coração, a encontrou sentada sobre a cama de Marieta, com um vestido rosa de seda pura e leve entre os dedos, mirando o final de tarde esplendido que se fazia com o por do sol.

Tânia – Alice... – a chamou mais duas vezes antes de se aproximar, sentindo o perfume de rosas por todos os cantos do quarto – Alice precisa tomar banho e descansar. – sua voz doce e terna tirou Alice de seus pensamentos.
Alice – Sabe Tânia... – mordeu os lábios inchados, levando as mãos para enxugar as lágrimas dos olhos profundamente vermelhos – Quando Edward e eu éramos pequenos, mamãe costumava nos dizer que tínhamos um anjo da guarda. – Tânia engoliu o choro, percebendo a necessidade que Alice tinha de lhe falar aquelas coisas – Mamãe dizia que Mari iria olhar por nós. E eu a culpei por tanto tempo quando se foi sem se despedir de mim... – negou com a cabeça, fechando os olhos – E agora, Mari também se foi sem se despedir de mim. – o primeiro soluço cedeu. Tânia a abraçou com carinho e ternura, lhe alisando os cabelos com calma – Meu Deus! Foi tão de repente que eu... – se emocionou ainda mais, não dando espaço para que seus lábios pronunciassem tudo o que precisava dizer.
Alice – Quando fui mocinha pela primeira vez, foi para ela que eu corri para contar; quando fui mulher pela primeira vez, foi a ela que eu disse; quando fui esposa; quando fui mãe... E agora, Tânia? – perguntou, olhando nos olhos daquela estranha mulher que lhe passava conforto pelo simples fato de lhe ouvir – Eu já sinto tantas saudades que me queima... Que me rasga e...
Tânia – Marieta ficaria triste de ver-te assim, Alice. Foi embora em paz, Edward nos disse. Não chore querida.... – lhe limpou as lágrimas. Alice baixou a cabeça, sentida, soluçando no seu mais intimo interior, apertando o vestido entre os dedos.


A noite chegou e, junto com ela, alguém bateu a porta. No mesmo instante, o pequeno Tom despertou. Alice se levantou e Tânia desceu as escadas rumo à porta de entrada.


Alice observou o menino que chorava em seu berço e debruçou sobre o mesmo, o acariciando no pescoço e nos cabelos, o suficiente para que o garotinho notasse sua presença e se acalmasse a olhando profundamente, com as mãozinhas buscando seu colo. Alice o pegou, o abraçando com carinho, deixando aquela onde de lágrimas se apossarem de seus mais puros sentimentos. Sentiu alguém se aproximar atrás de si e virou se, se deparando com Robert. Ele a olhou nos olhos antes de se emocionar.


Alice franziu a testa, mordendo os próprios lábios e negou com a cabeça, mais uma vez inconformada que tais acontecimentos haviam mesmo se passado. Deu um passo. Outro. E no próximo estava nos braços daquele estranho homem, que lhe acolhia junto ao peito com seu filho, que, silencioso, respeitava seu momento.


Robert não disse nada. Acariciou-lhe os cabelos, a segurando com firmeza entre os braços, tentando passar um pouco - somente pouco - do sol que havia lhe restado na vida.


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Gabriel jogou a última rosa branca, observando as pessoas caminharem dispersas para seus carros. O sol tomava conta de grande parte do cemitério bem cuidado; o céu azul não transmitia a tristeza que ele sentia em seu interior. Observou a seu pai, que se abraçava a Alice com força, tratando de se passar de forte, como sua mãe vinha fazendo desde que havia acordado. Observou Nelita, sentada ao canto, com o olhar perdido, dobrando e redobrando o lenço em suas mãos. O toldo branco que os protegia do sol naquela manha começava a ser retirado. Mirou Emmett, que agora oferecia um copo de água a Tânia, que desolada e sem ninguém para a consolar, tentava a todo custo esconder as lágrimas por debaixo do óculos escuro.


Ed – Filho? – ouviu seu pai o chamando. Leu pela última vez o nome de sua avó na lápide branca sobre o gramado tão verde e iluminado e virou-se, caminhando em direção a Edward, que esperava por ele com as mãos estendidas.
Bella – Vá à frente, eu os alcanço. – Alice assentiu, abraçando sua cunhada mais uma vez, para logo depois caminhar para o carro que os aguardava, junto ao irmão, que levava Gabriel nos braços.


Bella tirou o sapato alto de bico fino, tendo contato com a grama e fechou os olhos, respirando fundo, caminhando até a frente da lápide recém-colocada. Virou-se, vendo todos finalmente entrarem em seus carros e partirem após a madrugada e a manhã intensamente triste e vazia. Sentou-se na grama, tirando os óculos escuros.


Bella – Será que pode me ouvir? – perguntou, observando o buquê de rosas brancas colocados por Edward no pequeno vaso ao lado da lápide – De qualquer maneira, há coisas que eu não tive tempo de dizer, e preciso que saiba! – fungou, suspirando, buscando força e energia – Eu esperei o dia em que você chegaria e me diria que sabia sobre tudo... – sorriu, mordendo os lábios – Na realidade, eu acho que você sabia de tudo. O estranho, Mari, é que ainda te sinto tão presente dentro de mim, como sinto minha mãe. Pode parecer tolo, mas você está perto dela agora? - sua voz falhou pelo choro – Porque, se estiver, diga a ela que sinto saudades e diga também que eu me orgulho de você, que fez um ótimo trabalho aqui em baixo, criando seu menino, que agora é o meu homem. Eu gostaria de dizer obrigada, Mari, não só por isso, mas por tantas coisas. E agora... – limpou as lágrimas – Tudo o que eu consigo me lembrar é de sua mirada me medindo de cima abaixo naquela festa, para depois me receber de braços abertos, como se eu fosse a mais pura e bela das mulheres. - Bella negou com a cabeça – Deus! Mesmo que eu não fosse... Você fez com que eu me sentisse exatamente assim. Não pelo vestido ou pela maquiagem, mas sim pelo seu olhar tão azul, que sempre me dizia que... Céus! Tudo iria ficar bem! – sorriu tristemente, se levantando.

Bella - Eu cuido do seu garoto por aqui... – sua voz foi baixa e trêmula – Olhe por nós daí de cima, tá?  E me de força para ser tudo o que essa família precisar que eu seja. – Com um último beijo na rosa em suas mãos, A depositou carinhosamente sobre a lápide daquela que jamais seria esquecida.



Marieta Elizabeth Cullen.
25.03.1958    -     02.09.2012
Nosso Eterno Sol.



Bella se virou, colocando o sapato, caminhando para a última limusine preta parada na calçada.

1 comentários:

MoohCelestino disse...

Que triste choraaaando muiiiiito aqui.

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